segunda-feira, 13 de abril de 2009

Um Homem de Família



Ali, naquele instante, ele notou que já não era tão engraçado. Contou a piadinha, crente que ouviria risadas. A mulher, o filho adolescente e a pequena menina, continuaram cada um com as mesmas expressões. O sol fumegante estava propício para uma praia. Era início de feriadão. Haviam chegado com tranqüilidade naquele balneário, um fato raro que o trânsito não tivesse atrapalhado. Enfim; tudo estava bom demais para que alguém aceitasse todo aquele mau humor. Resolveu fazer uns testes. Elogiou o biquíni da esposa. A mulher nem aí. Perguntou se o rapaz queria dar uma volta até a costa. O filho de forma seca disse que não. Pegou as raquetes de frescobol e sugeriu a caçula uma brincadeira na beira do mar. A garotinha respondeu que ficaria por ali mesmo, na sua cadeirinha. Perguntou se alguém queria um sorvete. Todos disseram que esperariam mais um pouco. Finalmente perguntou qual era o problema. Todos responderam de forma não muito convincente que não havia problema algum.

Foi assim por todo o resto do dia, sua família o tratava com frieza, não faziam crer que ali estava aquele que deveriam mais respeitar. Se pelo menos houvesse alguma reclamação, ou que tivessem brigado. Um sorriso! Ah que bom seria um simples sorriso. O feriadão, desse jeito então, foi se esvaindo como areia de praia entre os dedos.

Na segunda feira, ao sair pra trabalhar, o sujeito ouviu um estrondo e uma grande rachadura se abriu no chão, bem à sua frente. O tremor da terra o fez cair no fundo daquele fosso. Na queda ele machucou a perna e ficou sentado pedindo por socorro. O local era úmido, cheio de limo. A voz saia rouca e enfraquecida. Ninguém lá em cima parecia ouvir. Apenas o eco respondia a cada grito. Parou de berrar. Levantou-se e tentou, mesmo com a perna daquele jeito, escalar as paredes daquele grotão. A falta de um apoio e a perna dolorida não o deixava sair. No entanto é preciso que sempre saibamos de uma coisa; tudo sempre pode piorar e uma forte chuva veio, pra transformar o que era patético em perigoso. A preocupação agora era aquilo tudo desmoronar. Seria enterrado vivo.

Pensou na sua esposa, tão apaixonada quando jovem, e lembrou certa ocasião em que ela lhe escreveu uma carta de três folhas com poemas, planos e cumplicidade. Ele não tinha dúvidas que aquela era sua alma gêmea. Anos fabulosos de namoro e casamento, pena que ela não achava mais graça nas suas piadas e pelo que parecia, na sua companhia. Há certo tempo que ele não à via sorrir. Um pedaço do barranco cedeu e o homem agora estava soterrado até os joelhos. De fato ele estava em apuros.

O filho surgiu-lhe na lembrança. Garotão esperto. Era adorável quando em outros tempos levava o então menino, pra chutar umas bolas nos campos de futebol da associação. Até depois, com o rapaz já mais crescido, adorava ver a cara de satisfação ao ensiná-lo a dirigir. Tudo isso, porém, já fazia parte de um passado distante nos sentimentos do filho. A esta altura a terra já batia no peito dele.

A lembrança da caçulinha era o que mais doía para o infeliz homem. Como uma criança tão pequena poderia ter adquirido tanta indiferença a um pai que tentava de todas as formas agradá-la. Tudo bem que ele era meio “sem noção”, mas crianças pequenas não deveriam ser tão exigentes. Parecia que ela tinha sido treinada para ignorar o próprio pai. Definitivamente ele não agradava mais aquela gente.

A terra, praticamente uma lama movediça, até o pescoço, já não permitia qualquer movimento do corpo. A submersão foi acelerada e em poucos minutos o homem conseguia apenas ver por um pequeno buraco a luz da superfície. Sua respiração era precária. Nos olhos já cheios de umidade, não se sabia o que era chuva e o que era lágrima. A falta de ar, o desespero, uma sensação de pânico tomou conta do homem. Já estava se entregando.

Foi um som, abafado que ainda fez o homem ter uma fagulha de ressurreição, um latido. Cristo, o cão. Meu Deus, como ele poderia ter esquecido o amigão. Cristo era o cachorro da casa, um pastor alemão forte e brincalhão. Todos gostavam dele. O homem logo sentiu puxões pelos braços. Cristo, não se sabe como, descobriu o dono ali enterrado e, mesmo debaixo do temporal, cavou sem desistir até que conseguisse puxá-lo, com os dentes, pela camisa. O homem com a ajuda do fiel amigo conseguiu então chegar de novo ao nível da rua. Estava todo enlameado, com a perna dolorida. Olhou para a casa a cerca de cinco metros. A chuva era torrencial. Pegou Cristo e lhe tirou a coleira, em seguida despiu as próprias roupas e saiu dali mancando, nú, com a companhia do cachorro e a chuva lavando sua alma. Foi se afastando da casa. Ainda falou em voz baixa:

--- Adeus, família de merda.

Nunca mais o homem e o cão voltaram para aquela estúpida casa.

Nenhum comentário: